1 ano e meio de Canadá e um tanto de sentimento em forma de post

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Depois de tanto tempo sem escrever por aqui, tem tanta coisa martelando na cabeça e fazendo os dedos coçarem para que sejam escritas, que eu precisei de alguns dias pra finalmente decidir o que eu iria escrever nesse post.

Este mês completaremos 1 ano e 6 meses vivendo aqui no Canadá. Sim! O tempo voa e com ele oportunidades vão e vêm, sonhos se realizam ou se frustram e absolutamente tudo pode mudar radicalmente sem que a gente sequer perceba. Quando tudo passa, a gente só pára e pensa: Caraca…tudo mudou! Pois é….mudança é a palavra chave pro que estamos vivendo aqui. Essa experiência tem nos transformado de todas as formas possíveis e a cada novo desafio, lá estamos nós mudando mais um pouco. Às vezes cansa, às vezes dá mais motivação. Imigrar pra outro país é literalmente viver uma montanha russa de emoções e sentimentos. Com certeza essa é a melhor definição que eu poderia dar se a intenção fosse definir, em vez de continuar mudando.

Durante esse tempo em que temos vivido aqui, incontáveis são os episódios que nos afetaram positiva ou negativamente. Óbviamente existem aqueles que nos marcam de maneira mais profunda e é sobre isso que eu gostaria de falar no post de hoje.

1. A superficialidade das relações

Talvez este seja o ponto que mais me afeta pessoalmente e por isso ele é o primeiro que me vem à cabeça quando penso nas relações que temos construído aqui. Depois de um certo tempo morando fora, é incrível o sentimento de solidão que pode nos acometer quando nos deparamos com o desafio de construir relações novas já na fase adulta da vida. Os novos amigos, os novos colegas de trabalho, os novos vizinhos. Qualidades e defeitos confrontam-se diariamente. A imagem que você tem de si mesmo, que a sua família e seus amigos da vida toda têm de você, pode ser totalmente distorcida pelas perspectivas das novas pessoas que têm chegado à sua vida e pela nova forma que você enxergará a si mesmo.  Em determinado momento, a sensação que temos é de que não sabemos mais quem somos ou a qual lugar pertencemos.

Ao passo em que tudo é tão novo, a instabilidade da vida fica ali, o tempo inteiro se mostrando presente, esfregando na sua cara todos os seus medos e fraquezas e então você nota que é preciso paciência e dedicação pra lidar com o momento de conhecer o próximo. Conhecer é a palavra. Conhecer implica em processo, paciência, compreensão e menos julgamentos. Conhecer implica em se abrir, em se desarmar, em errar. E então concluir que, na verdade, durante todo esse período você estava era conhecendo a si mesmo.

2. As coisas nem sempre acontecem no tempo em que você planejou

Esse talvez seja o maior ensinamento tirado de toda essa experiência até agora. Nós viemos pra cá com um plano, um plano que foi e é alterado diariamente ao longo desse tempo e que agora está apenas na metade da trajetória que traçamos. Acontece que com a instabilidade da vida de imigrante, a ansiedade, o medo e a falta de paciência (provavelmente devido ao cansaço que você sente após todas as mudanças que viveu) começam a te fazer desejar que tudo ocorra mais rápido. É isso. Eu quero, quero pra ontem, quero agora! Quem me conhece pessoalmente provavelmente me imaginou dizendo esta frase.

Apesar de sempre ter sido muito decidida, dedicada e muito determinada, também me considero uma pessoa extremamente exigente e às vezes rígida em alguns aspectos. Sou daquele tipo que tem dificuldade em assumir que também é humano, passível de errar e de falhar e por isso perco muito tempo procurando fazer tudo com perfeição, nos mínimos detalhes para que nada dê errado no final.  É aí que…TCHARAMMMMM…a vida mais uma vez vem e põe você no seu lugar, que por sinal não é a torre de controle da própria vida. É bizarro e extremamente frustrante pra nós, meros mortais em fase de evolução.

Nessas horas, é muito importante acreditar no plano que você tem, se lembrar de tudo o que te trouxe até aqui, exercitar a paciência e MANTER O FOCO.

Confesso que, até pra mim, que tenho determinada habilidade em administrar planos à longo prazo, toda essa ansiedade é extremamente dificil de lidar. Nós só queremos nosso PR poxa…não dá pra adiantar as coisas aí não vida? É foda. E sim, falar palavrão ajuda e muito numa hora como essas.

 

3. A falta de identidade do cidadão do mundo

Por fim, essa é a parte mais ridícula de tudo isso. Você imigra pra outro país, todos os seus amigos acham você um super herói. Todo mundo diz coisas do tipo: Que coragem! Vocês são demais! Eu faria o mesmo! Ahh se eu tivesse essa oportunidade (como se a gente não tivesse que ter ralado pra cacete pra criar a bendita da oportunidade, né?) e então você deixa tudo pra tráz pra começar a vida no seu novo país. Daí vem a fase exploratória, você passeia muito, faz pequenas viagens, faz grandes viagens, aproveita a boa localização do seu novo lar pra conhecer os países vizinhos e começa a ganhar em dólar (o que facilita muito a vida de gente que adora viajar como eu), mas seu coração e sua conta bancária sabem que você não está fazendo nada demais. Você continua fazendo planilhas e planilhas pra conseguir viajar 2 vezes por ano e pra fazer pequenas visitas às cidades que ficam nos arredores da sua, você continua economizando e caçando passagens baratas no google flights, mas todo mundo acha que você é o viajante, o cara sem raízes, o cidadão do mundo, o diferentão. E então a abordagem muda. Agora as pessoas dizem: Ahh lá…a fulana? Tá bem pra caramba lá no Canadá. Vish…tá bem. Aquela ali, nossaaaaa tá um sucesso.

GENTE pó pará com isso pelamordedeus??? ahahaha

O que ninguém sabe (só você sabe) é que, na verdade, o que acontece com você é uma falta de identidade tremenda. Depois do tempo da adaptação, você não se sente mais tão brasileiro, mas também não é canadense. Você continua com aquele humor latino que dá gosto de ver e que te faz dançar até jingle de natal, mas também adquiriu aquela falta de paciência pra burocracia burra que os norte americanos têm e deixa de olhar pros dois lados da rua quando vai atravessar. Você fica ali. Não chove, nem molha. Não caga e nem sai da moita. Não sabe se vai ou se fica, se casa ou se compra uma bicicleta.

Juro! Aprendi isso na primeira viagem que fiz ao Brasil depois de ter morado aqui por um tempo. Eu não sabia quem era Wesley Safadão (ignorância é uma dádiva às vezes) mas todos os meus amigos cantavam as músicas dele como se fosse o Reginaldo Rossi na mesa do bar. O Código de Processo Civil tinha mudado por inteiro, as piadas tinham mudado também e eu não sabia a dança nova da Anita (não que eu soubesse antes, mas ok). Tinha corredor de onibus onde não existia, a velocidade na marginal era 50km por hora e aquilo parecia incrivelmente ridículo quando em Vancouver a gente tá acostumado a dirigir  a 30km por hora parando pra todos os vovozinhos do bairro. Ainda tinha a lei da rua, ne? Dirigir enlouquecidamente e xingar todos os outros motoristas e motoboys ao seu redor no transito maluco de SP.  A Paulista estava aberta para a população no final de semana. Foi lindo de ver.

Depois de 10 dias no Brasil eu já queria voltar pro Canadá. E depois de quase 1 ano no Canadá, já queremos ir ao Brasil de novo.  Voltar ao Brasil foi como se sentir um estranho no ninho, mas com o coração confortado em ver que todos estavam bem e que a vida continuou pra eles, como havia continuado pra mim.

No final do dia, um ano e meio é pouquíssimo tempo pra definir coisas ou relações e este é mais um daqueles posts que eu escrevo pra Danielle que os lerá daqui a dez anos e que se recordará desta fase da vida dela com um sorriso nos lábios e mais um monte de novas histórias pra escrever.

 

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